19
Mar 10

*Relato da minha experiência num artigo feito para a revista Olhar, do Jornal da Madeira.

 

Por todo o lado.

Acordei sobressaltado com um telefonema a dar conta que o Funchal estava a ser atingido por fortes enxurradas. Estava de folga esse fim-de-semana. Levantei-me num ápice e através de alguns telefonemas apercebi-me que a situação era grave.
Pouco tempo depois, já saltava para dentro do carro.
Benzi-me e segui.
 Notei que o nevoeiro naquela manhã era denso, em certas zonas da cidade. Liguei os quatro piscas, os faróis de nevoeiro e, cautelosamente, fui descendo para o centro. Era o único naquele sentido. Todos os outros subiam. Parei na zona dos Ilhéus, perto do acesso à Ribeira de São João, mas suficientemente distante para não ser apanhado por qualquer eventualidade. De impermeável com capuz, guarda-chuva e mochila à costas comecei a caminhar em direcção à ribeira.
As pessoas andavam descontroladas de um lado para o outro. Umas mostravam medo, outras curiosidade. Da ribeira saíam sons poderosos. As águas revoltas desciam velozes e insaciáveis perante tudo o que lhes aparecia à frente. Nada lhes escapava. Mais cedo ou mais tarde, tudo cedia.
Continuei a descer. Passei o edifício 2000 e, em seguida,  a rotuda do Dolce Vita. Vi as primeiras “ebolições” de terra, lama e pedras saírem da zona aberta da rotunda e antevi que aquele seria um dos pontos sensíveis. Uma fissura enorme na estrada confirmava os meus receios.
Prossegui em direcção à Rua Dr. Fernão de Ornelas. Mas antes fotografei com a câmara do telemóvel a marina, a Avenida Sá Carneiro, a Avenida do Mar, o Cais do Funchal, a Assembleia, etc., etc. até chegar ao Jornal da Madeira. Queria assegurar que teríamos todos os momentos, apesar de saber que já havia equipas do Jornal da Madeira no terreno.
Uma das imagens fortes desse dia – e houve muitas – foi ver a partir do início da Fernão de Ornelas a água a passar por cima da ponte do mercado.
Uma massa de água poderosa, impossível de conter, galgou todos os obstáculos e engoliu a ponte, fazendo acreditar que a passagem não tinha resistido. Parecia uma cobra sem fim, pela forma como a água misturada com a lama descia a ribeira de João Gomes.
Cheguei ao Jornal. Pedi uma máquina fotográfica, um gravador e voltei a sair. Ignorei o incómodo guarda-chuva, apesar da precipitação continuar. O casaco com capuz seria suficiente, achei.
Estive durante seis horas na rua, andando de um lado para o outro, subindo e descendo, percorrendo caminhos pelo meio da lama e com água por vezes até aos joelhos, fotografando e entrevistando. Fui à muito atingida zona do Campo da Barca. A força da água em frente à Secretaria Regional do Equipamento Social era verdadeiramente impressionante.
Voltei para trás, subi a Pena e comecei a contar. 1, 2, 3,… 10, 22,… 27,… 30 carros destruídos. Um deles era dos bombeiros. Porém, nenhum morador, de um lado ou do outro da estrada, ligava àquele cemitério de lata. Na verdade, ninguém tinha mãos a medir face ao que lhes tinha acontecido nas suas próprias casas. Todos limpavam. Às vezes numa luta inglória, porque a chuva trazia tudo de novo. Mas ninguém desistia.
Disseram-me que mais acima, na Luso Brasileira, tinha acontecido uma tragédia. Continuei até lá chegar. E o que vi foi chocante. Carros atravessados no meio da estrada, lama a tapar o tornozelo, bombeiros de um lado para o outro, pessoas aflitas, um carro quase a cair… Nesse carro tinham estado três pessoas, duas não escaparam, uma tinha apenas cinco anos. Mãe e filho sucumbiram. Vi o menino ser retirado, já sem vida.
Rapidamente, apercebi-me tinham caído para cima das casas na Luso Brasileira dois outros carros. Um era táxi. Conforme o tempo passava, o número de mortos foi crescendo. Primeiro três, depois cinco. Nos dias seguintes continuou a aumentar.
Do meio do entulho, uma mulher gritava. Foi socorrida. Estava descontrolada. Só estava preocupada em socorrer os oito cães e o papagaio que tanto adorava. Achava que o marido estava bem. Até se aperceber que já não sabia onde ele estava. Veio o desespero. O choro. Os gritos.
É impossível alguém não se sentir abalado perante uma tragédia destas dimensões e com tantos dramas à mistura. Ainda assim, tentámos – e julgo que conseguimos – relatar com rigor tudo o que se passou. Fizemo-lo primeiro nas instalações da empresa “O Liberal”, pois os sistemas do JM foram seriamente afectados pelo temporal, e depois na RJM e, por fim, já na redacção do jornal.
Cada um nós regista os momentos que passou. Uns mais trágicos do que outros, seguramente. Mas nunca mais sairá da memória colectiva dos madeirenses o fatídico dia 20 de Fevereiro de 2010.

 

Eis os primeiros registos que colhi. São os primeiros porque depois de ter passado pelo jornal, comecei a recolher as imagens com a máquina fotográfica e essas não fazem parte deste bloco de fotografias.

 

Primeiros sinais na rotunda do Dolce Vita

 

Primeiros sinais na rotunda do Dolce Vita

 

Primeiros sinais na rotunda do Dolce Vita

 

Rotunda do Infante

 

Avenida do Mar

 

Marina do Funchal

 

Marina do Funchal

 

Marina do Funchal

 

Foz da Ribeira de São João

 

Foz da Ribeira de São João

Foz da Ribeira de São João

 

Praia do Funchal, ao lado do Cais da cidade

 

Barco dos Beatles

 

Avenida do Mar

 

Avenida do Mar

 

Avenida do Mar

 

Ribeira de Santa Luzia

 

Ponte do Bazar do Povo (temia-se que ruisse)

 

Rua 31 de Janeiro

 

Rua do Seminário (ao fundo estacionamento do Anadia)

 

Rua Dr. Fernão de Ornelas (autoridades andaram de bote no ponto alto da enchente)

 

Pena (30 carros destruídos, pelo menos)

 

Pena

 

Pena

 

Pena

 

Pena

 

Pena

publicado por Alberto Pita às 20:19

O Estado arrecadou quase 200 mil euros em impostos com as chamadas de valor acrescentado criadas para ajudar a Madeira depois do temporal de Fevereiro, que matou 43 pessoas, desalojou 600 e provocou avultados danos materiais.

De acordo com as contas feitas pela Lusa e que se referem apenas às chamadas de valor acrescentado promovidas pela TMN, PT e pela Sonaecom, que se associou à campanha lançada pelas empresas do grupo Media Capital, foram arrecadados em impostos pelo Estado 198 120 euros, resultantes dos telefonemas e mensagens sms de solidariedade.

Nestas três campanhas de solidariedade foram recolhidos quase um milhão de euros (991 170 euros) de apoios.

Questionado pela Lusa sobre se havia alguma excepção para a cobrança de impostos nas chamadas de valor acrescentado relativas a campanhas de solidariedade, o Ministério das Finanças respondeu: "nada existe na lei que permita aplicar uma taxa reduzida".

A Lusa tentou igualmente saber se o Governo admitiria criar uma excepção para estes casos, mas não obteve resposta em tempo útil.

Segundo os dados recolhidos, na campanha de solidariedade para clientes TMN e PT, que permitia o envio de uma mensagem de sms ou uma chamada telefónica com a qual cada pessoa contribuiria com 0,60 euros para a Caritas Diocesana do Funchal, participaram mais de 61 mil pessoas, permitindo recolher até 11 de Março mais de 36 600 euros.

Além desta linha de apoio à Madeira, a PT associou-se à SIC no projecto "Uma flor pela Madeira" e através de um número de valor acrescentado (que implica a cobrança de 20 por cento de IVA) foram angariados 590 mil euros.

Fonte oficial da PT realçou que as verbas recolhidas com as chamadas, cada uma a 0,60 euros+IVA, "reverteram na íntegra para as entidades apoiadas", não tendo a operadora cobrado qualquer custo pelo serviço.

Já com a campanha "Portugal Solidário -- Ajuda a Madeira", uma acção conjunta das várias empresas do grupo Media Capital a favor da Caritas Portuguesa, foram angariados 364 570 euros de apoios.

Também aqui fonte da TVI revelou que, no caso da campanha pela Madeira, a operadora que colaborou com o Grupo Media Capital, a Sonaecom, assumiu os custos que habitualmente são transferidos para quem faz a chamada.

Só o Estado optou por seguir à risca a legislação, sem abrir qualquer excepção para as campanhas de solidariedade com a Madeira.

Assim, aos quase um milhão globalmente recolhidos nestas campanhas de solidariedade com chamadas de valor acrescentado, juntaram-se cerca de 200 mil (198 120 euros) que quem apoiou pagou de imposto (IVA) e que foram directos para os cofres do Ministério das Finanças.

O temporal do passado dia 20 de Fevereiro provocou 43 mortos e existem ainda oito desaparecidos, depois da enxurrada que varreu a ilha.

publicado por Alberto Pita às 16:05

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